O papel da Nutrição na Odontologia

O papel da Nutrição na Odontologia

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A Odontologia e a Nutrição podem atuar juntas na garantia da saúde bucal.

As máximas “nós somos o que comemos” e “a saúde começa pela boca” caminham juntas quando os cuidados com a saúde bucal aliam a Nutrição à Odontologia. Além de evitar açúcar e doces, uma alimentação balanceada e saudável pode contribuir muito com a prevenção a cáries e outras doenças sistêmicas que podem afetar a dentição.

Quando o cirurgião-dentista tem conhecimentos sobre nutrição, ou acrescenta aos tratamentos de seus pacientes o acompanhamento de nutricionistas, os resultados são muitos positivos. “Uma das coisas que eu preciso esclarecer é que a nutrição não é remédio.

Isso faz as pessoas pensarem que uma maçã, a cada duas horas por sete dias, vai resolver o problema. Como os alimentos têm nutrientes diferentes, eles cumprem funções diferentes para várias partes do nosso corpo”, esclarece a nutricionista Maiara Souza, do Art Beauty Center, de Uberaba (MG).

Em sua clínica multidisciplinar, Maiara conta com a presença de cirurgiões-dentistas na equipe e comenta que são inúmeros os casos de pacientes odontológicos que passam a se tratar com ela porque apresentam condições sistêmicas que afetam sua saúde bucal e que podem ser corrigidas com uma dieta alimentar adequada.

A profissional menciona que, no caso da Periodontia, a vitamina C é muito importante por proteger o tecido da gengiva contra lesões e por ajudar na cicatrização. “Quando investigo sinais e sintomas dos meus pacientes, costumo perguntar se eles têm sangramento de gengiva quando passam o fio dental. Isso pode acontecer por alguma doença periodontal, mas também pelo baixo consumo de
vitamina C”, explica.

Maiara Souza indica que a vitamina C está presente em frutas e verduras, e o ideal é que o consumo desses alimentos seja diário, até mesmo por outros benefícios que trazem à saúde, como fibras e sais minerais, e até mesmo para treinar a mastigação. “Tenho certeza que isso também influencia na Ortodontia. Hoje em dia, as pessoas fazem tudo correndo e, por isso, acabam não mastigando bem os alimentos, o que pode acarretar uma série de problemas”, ressalta.

A alimentação pode influenciar a dentição desde o nascimento de um bebê. Maiara aponta que a amamentação tem um papel muito importante na formação da arcada dentária, assim como a alimentação sólida.

“A introdução alimentar é algo muito recente no mundo inteiro, e no Brasil mais ainda. Antigamente, acreditávamos que um bebê tinha que ingerir os alimentos triturados ou em papinha. Mas, o ideal é ir solidificando essa alimentação, tanto para que eles comecem a treinar a mastigação como para não se tornarem adultos com apetite infantil. Se uma criança come uma couve batida no liquidificador, vai estranhar muito quando experimentar a verdura inteira e, muitas vezes, isso é feito só no fim da infância ou começo da pré-adolescência”, diz Maiara.

A nutricionista reconhece que a introdução alimentar é trabalhosa, mas afirma que é necessária e impacta a vida e saúde de uma pessoa para sempre. Isso porque a criança precisa criar uma relação prazerosa com os alimentos e comer no tempo dela, não no tempo dos adultos. Ela também sinaliza que os bebês que pegam a comida com a mão, se lambuzam e ingerem, normalmente não desenvolvem uma seletividade alimentar na fase adulta e gostam de comer praticamente de tudo.

Em relação a pacientes odontológicos com comorbidades, como diabetes e hipertensão, entre outras doenças, Maiara Souza diz que sempre indica aos cirurgiões-dentistas que encaminhem essas pessoas para um nutricionista. “Pode parecer óbvio, mas o óbvio precisa ser dito.

O atendimento multidisciplinar é muito comum entre profissionais da saúde, mas os pacientes não entendem por que precisam ir ao nutricionista se estão tratando uma lesão de cárie, ou se estão controlando suas enfermidades com medicamentos.

O paciente precisa entender como é perigoso iniciar um tratamento odontológico com o diabetes ou hipertensão descompensados, e o nutricionista pode auxiliar muito na estabilização dessas doenças”, afirma.

A suplementação de vitaminas e nutrientes também não deve ser feita sem orientação de um nutricionista. Cada organismo tem um comportamento diferente e o uso dessas substâncias em quantidades inadequadas pode causar consequências graves à saúde.

“Vejo alguns profissionais indicando o consumo de zinco, por exemplo, mas em determinada quantidade ele pode causar um terrível desconforto gástrico”, exemplifica. Maiara aponta também a importância do cirurgião-dentista indicar aos pacientes que monitorem seus níveis de vitamina D. Essa substância é importante para o controle de diversas funcionalidades do organismo, mas precisa ser prescrita na dosagem certa para cada pessoa.

“A pandemia de Covid-19 causou um aumento de casos de intoxicação por vitamina D devido à automedicação praticada pelas pessoas sem orientação de um especialista”, comenta.

A principal fonte natural de vitamina D é o sol. Mas, considerando o risco de câncer de pele e o longo tempo de exposição ao sol que seria necessário para ter bons níveis dessa substância, pode ser recomendável a suplementação dessa vitamina. “Ela pode ser encontrada em diversos alimentos, mas em quantidades baixas que não suprem a necessidade do organismo”, diz Maiara.

A especialista aponta que a área de nutrigenética, que mapeia geneticamente a condição nutricional das pessoas, facilita o diagnóstico de polimorfismos e deficiências crônicas de algumas vitaminas. “O indivíduo já nasce com essa condição e não é algo que possa mudar apenas com alimentação natural. Normalmente, o mais comum são casos de deficiência das vitaminas D e B12”.

Até mesmo os distúrbios emocionais e de saúde mental sofrem a influência da falta de vitamina D. “Há condições, como ansiedade, estresse, depressão, bipolaridade, borderline e TDAH, que apresentam níveis de vitamina D menores do que os indicados”, complementa Maiara, observando que essa condição pode acentuar os sintomas de pacientes que sofrem de odontofobia.

“Uma dica que sempre dou aos cirurgiões-dentistas é perguntar ao paciente se ele se alimenta bem. A maioria das pessoas vai responder que sim. Come frutas e vegetais? Com qual frequência? Se a pessoa pensar muito para responder é porque come menos do que deveria. Então, o profissional deve sugerir que esse paciente faça exames para identificar seu quadro vitamínico. O resultado pode indicar a causa de diversos problemas que afetam sua saúde bucal”, diz Maiara.

Sobre os alimentos que podem interferir negativa e positivamente na saúde bucal, Maiara aponta o açúcar e amidos como os principais vilões, pois reduzem o pH da boca, tornando o ambiente mais propício para a proliferação de bactérias e, consequentemente, para a formação de lesões de cárie. Já os vegetais e frutas têm substâncias que funcionam como detergentes e ajudam a limpar os dentes.

“É muito interessante porque o processo de mastigação e de ingestão de vegetais e alimentos fibrosos servem como se fosse uma forma de escovação, ao mesmo tempo que protegem e conservam o PH da boca. E, quando essas fibras chegam no intestino, também auxiliarão no cultivo de probióticos, que são bactérias boas, mantendo a microbiota intestinal, melhorando a halitose e prevenindo contra o crescimento das bactérias ruins”, pontua.

O consumo de cálcio na alimentação também é apontado pela nutricionista como fundamental para o fortalecimento dos ossos, podendo desacelerar o processo de perda óssea natural com o envelhecimento, deixando os ossos da boca melhor preparados, por exemplo, para receber implantes.

“Hoje em dia, muitas pessoas têm desenvolvido alergias e intolerâncias alimentares, especialmente ao leite e à lactose, e o problema é que não equalizam a alimentação. O leite e seus derivados são a melhor fonte de cálcio que existe. No leite sem lactose, a biodisponibilidade do cálcio diminui, mas ainda é presente”, esclarece. Quanto ao fato do leite ser um alimento inflamatório, ela diz que isso pode ser verdade para algumas pessoas, e não para outras.

“O leite causa inflamação para pessoas que têm algum problema com sua ingestão. Os intolerantes à lactose são afetados por gases, cólicas, diarreia, distensão abdominal e aumento de rosácea. Já quem não sofre com essa condição não terá problema algum”.

Ela aconselha que as pessoas vegetarianas estritas, veganas ou que não consumam leite ou proteína animal por qualquer outra razão, busquem a orientação de um nutricionista porque há substâncias muito importantes nesses alimentos que precisam ser suplementadas se eles não forem consumidos em sua forma natural.

“Uma deficiência grave de vitamina B12, que está presente na proteína animal, pode chegar a afetar gravemente o sistema nervoso”, complementa.

Maiara Souza considera que a orientação nutricional feita por um profissional especializado deveria acontecer desde o nascimento, sendo tão necessária quanto o acompanhamento pediátrico. “Consultar um nutricionista ainda é considerado como algo supérfluo, como se comer fosse opcional para o ser humano”, finaliza.