Cannabis medicinal e sua aplicação na Odontologia
O interesse pelo uso da cannabis medicinal tem aumentado substancialmente. (Imagem: Adobe Stock)

Cannabis medicinal e sua aplicação na Odontologia

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Especialistas têm aderido ao tratamento com a cannabis medicinal, especialmente por conta dos bons resultados apresentados pelos pacientes.

O uso da planta Cannabis sativa para fins medicinais não é uma novidade e remonta ao período de 1.500 a.C., com textos que descrevem o tratamento de diversos males, como dores crônicas, inflamações e distúrbios gastrointestinais, em práticas exercidas por chineses e egípcios na antiguidade. Na história recente, a planta foi muito usada como medicamento entre o final do século 19 e início do século 20.

Nos Estados Unidos, a cannabis estava na lista de fármacos legalizados até 1940. No entanto, o uso medicinal passou a sofrer restrições e até proibições em alguns países, especialmente devido aos efeitos psicoativos da planta.

Nas últimas décadas, o interesse pelo uso medicinal da cannabis tem aumentado substancialmente, baseado em estudos que comprovam sua eficácia no tratamento de dores crônicas, náuseas e outros sintomas associados a condições severas, como esclerose múltipla, câncer, mal de Parkinson e Alzheimer, entre outras.

Entre os anos 1960 e 1970, o cientista israelense Raphael Mechoulam conduziu estudos importantes sobre o uso medicinal da Cannabis sativa e conseguiu isolar o tetrahidrocanabinol (THC), principal componente psicoativo da planta. Suas pesquisas levaram à descoberta do THC e do sistema endocanabinoide, um complexo mecanismo de sinalização celular que desempenha um papel na regulação de uma ampla gama de processos fisiológicos no corpo. Raphael Mechoulam faleceu recentemente, no dia 9 de março deste ano, aos 92 anos, e ficou mundialmente conhecido como Dr. Cannabis. Seus estudos foram fundamentais para o uso medicinal da planta e para o desenvolvimento de pesquisas futuras sobre o tema.

A Cannabis e a Odontologia

A Odontologia também tem se rendido ao uso do canabidiol (CBD), uma das mais de 400 substâncias químicas encontradas na Cannabis sativa. Atualmente, as principais aplicações são nos tratamentos de disfunção temporomandibular (DTM) e problemas periodontais, mas especialistas garantem que outras áreas também podem vir a indicar o uso do CBD aos pacientes, conforme forem surgindo mais estudos e os cirurgiões-dentistas buscarem mais informações sobre o assunto.

“Os canabinoides são uma categoria de medicamentos fitoterápicos que têm benefícios evidentes”, afirma o ortodontista João Paulo Tanganelli, de São Paulo, especializado em DTM e Ortopedia Funcional dos Maxilares. O especialista aponta que, até pouco tempo atrás, havia muita desconfiança e um certo preconceito em relação ao uso medicinal dessa substância, devido à aplicação recreativa e entorpecente da Cannabis sativa. No entanto, esse conceito tem mudado com muita rapidez, principalmente pela quantidade de informação e comprovação de resultados positivos no tratamento de patologias e sintomas que não param de surgir.

O sistema endocanabinoide, descoberto pelo cientista Raphael Mechoulam, é uma condição produzida pelo próprio organismo. “O principal e mais estudado endocanabinoide foi batizado de anandamida, nome que deriva do sânscrito, onde a palavra ‘amida’ significa felicidade, bem-estar”, descreve Tanganelli.

O ortodontista explica que o sistema endocanabinoide atua sobre diversos outros sistemas endógenos. Até pouco tempo, acreditava-se, por exemplo, que a sensação de prazer ou relaxamento que uma pessoa sente após correr ou praticar atividades que despertem a adrenalina fosse atribuída à endorfina. Mas, na verdade, ela é responsável pelo efeito analgésico. A sensação de bem-estar é provocada pelo sistema endocanabinoide.

“Na Odontologia, já há muitas evidências da eficácia dos canabinoides para dores crônicas, de maneira geral. O uso da substância tem sido mais estudado para disfunção temporomandibular (DTM), bruxismo e, mais recentemente, como acelerador de processos reparadores, anti-inflamatórios e cicatrizantes. Existe até gel à base de CBD para tratamento de aftas”, explica Tanganelli.

A cannabis medicinal se apresenta em diversos formatos, como óleo, gel, creme dental e enxaguatório bucal, abrindo possibilidade para outras apresentações. “Ao contrário dos opioides, cujo excesso de uso pode levar a uma insuficiência respiratória, os nossos receptores de cannabis não ficam no tronco encefálico, por isso seu uso não oferece riscos para o organismo”, detalha.

Segundo o especialista, o efeito de entorpecimento, causado pela substância THC, não está presente no canabidiol. “Os medicamentos de CBD regulamentados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) têm até 0,2% de THC, que é uma quantidade ínfima, insuficiente para efeitos entorpecentes”, afirma.

No entanto, é preciso certos cuidados ao utilizar a substância. Afinal, o THC pode causar dependência química quando usado em grande quantidade. “A substância não deve ser considerada apenas como vilã. Ela cumpre um papel importante também nos quadros de dor e ansiedade, quando usada em quantidades mínimas. Além disso, o CBD controla o THC”, detalha.

O ortodontista explica que a indicação do CBD na Odontologia sempre inicia com doses baixas até chegar no alvo terapêutico. Ele ressalta que o tratamento é individualizado e, por isso, não há um padrão de posologia generalizado. “Seguimos o sistema norte-americano, que diz ‘start low and go slow’, que significa ‘comece baixo e siga devagar’”, orienta.

Nos casos de DTM e bruxismo, não se fala em cura, mas sim em alívio dos sintomas. Tanganelli explica que o tratamento pode ser contínuo ou periódico, variando de caso a caso. “Se a DTM é causada por trauma, a medicação age na inflamação e depois não se faz mais necessária. Mas, se há condições multifatoriais envolvidas na causa do problema, como estresse, ansiedade e distúrbios do sono, o tratamento pode ser contínuo ou por períodos mais longos”, explica.

Tanganelli relata que as respostas aos tratamentos com canabinoides têm sido muito positivas. Segundo ele, pacientes que sofriam com dores crônicas há mais de 15 anos reportam ter se livrado completamente desse sofrimento após uma a duas semanas de uso do medicamento.

A ciência e a aplicação na Odontologia

O cirurgião-dentista Nivaldo Vanni, também ortodontista e especializado no tratamento da DTM, explica que as causas da disfunção temporomandibular podem ser múltiplas, considerando fatores sistêmicos e emocionais, que também acabam por ser amenizados pelo uso odontológico da cannabis medicinal.

“Como a cannabis tem um efeito modulatório, que trabalha equilibrando o sistema de funcionamento do organismo, ela consegue reduzir esses danos multifatoriais que o paciente de DTM possa apresentar, conseguindo melhorar muito as condições de sono e bem-estar, por exemplo”, define Vanni.

O especialista explica que, hoje em dia, há métodos muito precisos de assertividade de diagnóstico por meio de exames genéticos. “Como a DTM é resultado de um quadro multifatorial, esses métodos modernos permitem uma indicação mais precisa dos tratamentos, identificando quais são as causas primárias da disfunção”, diz o especialista.

Vanni aponta que os exames genéticos, disponíveis atualmente, podem ser um dos grandes aliados dos cirurgiões-dentistas, assim como de médicos de várias especialidades, para a definição de qual a melhor forma de seguir com o tratamento de cada paciente. “Recentemente, conheci um destes testes genéticos e estou procurando estudá-lo mais a fundo para, provavelmente, criar um protocolo de consulta com esse tipo de exame”, declara.

A coleta de material para esses testes genéticos é feita por swap nasal, que possibilita aos laboratórios especializados fazerem uma análise profunda e detalhada do DNA, detectando não apenas patologias existentes, mas também aquelas as quais o paciente apresenta propensão, facilitando ações preventivas de cuidados com a saúde.

Para esse tipo de exame que o especialista menciona, o material coletado é enviado para análise em laboratórios localizados na Dinamarca ou Estados Unidos, e o laudo vem assinado por um neurologista destes países, com todo o mapeamento genético do paciente.

Vanni também destaca o efeito antibacteriano dos canabinoides, apontando-os como superior ao da clorexidina, que hoje em dia é a principal substância utilizada em produtos de higiene bucal para controle de vírus e bactérias, mas que também deve ser usada de forma bem calculada porque pode apresentar o efeito colateral de escurecimento dos dentes.

É importante considerar que todos esses recursos mais modernos, em princípio, estão disponíveis apenas para uma parcela da população financeiramente mais abastada, já que esses exames genéticos são recursos de alto custo. Mas, o uso de canabinoides pode ser indicado por meio de métodos clínicos mais simples de diagnóstico e, ainda que os preços dos medicamentos não sejam necessariamente baixos, têm se tornado mais acessíveis, conforme o crescimento deste mercado.

O mercado

E por que os canabinoides só estão se popularizando agora para o uso medicinal, já que suas propriedades são milenarmente conhecidas? João Paulo Tanganelli aponta que, além do uso psicotrópico da planta, houve também uma grande pressão de vários setores da indústria. “No começo do século 20, houve até a preocupação de que as fibras do cânhamo ameaçassem a indústria têxtil do algodão, que precisa de muito mais área de plantio do que a Cannabis sativa para produzir uma peça de roupa”, exemplifica, ressaltando ainda o benefício ecológico que essa opção traz.

Indústrias, como a do tabaco e até mesmo a farmacêutica, também se armam contra uma certa concorrência comercial com a possibilidade do uso legalizado de propriedades da Cannabis sativa que possam ameaçar seus negócios.

Essa resistência, que também existe na classe médica, Tanganelli atribui principalmente aos entraves burocráticos e regulações para utilização dos canabinoides. No entanto, ele afirma que o Conselho Federal de Odontologia (CFO) sempre se mostrou muito aberto a dialogar com as autoridades competentes no sentido de apoiar e viabilizar o uso dos canabinoides na Odontologia.

Com a liberação do uso da cannabis medicinal pela Anvisa, o trâmite para aquisição dos produtos segue um caminho determinado, que começa com a prescrição pelo cirurgião-dentista. Em seguida, o importador entra em contato com o paciente, cumprindo todas as regras estabelecidas pela Anvisa. Quando o produto é entregue ao paciente, inicia-se o tratamento. “O processo tem sido bem rápido. Antigamente, levava meses. Agora, em menos de uma semana o medicamento já é entregue”, diz Tanganelli.

A produção de cannabis medicinal no Brasil foi autorizada pela Anvisa em 2019, por meio da criação de um novo marco regulatório para o cultivo, processamento e comercialização de produtos de cannabis medicinal. No entanto, a implementação dessa estrutura regulatória foi lenta e, em maio de 2023, ainda não havia empresas autorizadas a produzir cannabis medicinal no País. No entanto, há um crescente interesse dos consumidores brasileiros pelos potenciais benefícios terapêuticos da substância, e é possível que a sua produção aumente nos próximos anos.

Por enquanto, os produtos são importados, principalmente dos Estados Unidos e Canadá, e o Brasil já conta com mais de 80 empresas com CNPJ aberto para atuarem no mercado de Cannabis, segundo um levantamento da Kaya Mind, empresa brasileira especializada em dados e inteligência de mercado no segmento da cannabis.

O empresário Fabrizio Postiglione, sócio fundador da importadora de Cannabis Remederi, conta que conheceu esse mercado em 2009, quando estudava na Inglaterra e soube que os pais de um colega da faculdade já viviam do cultivo de cannabis para uso medicinal em Israel, e se interessou por conhecer mais sobre o assunto.

Em 2017, esse amigo entrou novamente em contato com Postiglione, que já havia voltado para o Brasil, para trabalhar na estruturação de um plano de negócios de uma fazenda de plantação de cannabis medicinal nos Estados Unidos. O empresário se mudou para lá para assumir a gestão operacional da fazenda e do laboratório, onde acompanhou todo o processo de plantio, rega, colheita e produção dos medicamentos.

Em 2019, Postiglione teve que retornar ao Brasil devido a problemas de saúde do pai, que chegou a fazer uso de canabinoides para tratamento de saúde. Nesse período, aproveitando toda a experiência adquirida, começou a estruturar sua empresa, uma das pioneiras do País nesse mercado.

O empresário conta que já havia um regulatório, desde 2015, que autorizava a importação de CBD para o Brasil. Em 2019, quando abriu sua empresa, esse trâmite já havia passado por algumas evoluções. “Era tudo muito moroso. O produto levava de quatro a seis meses para chegar na casa do paciente”, lembra Postiglione, ressaltando que daquele período até os dias de hoje houve um salto evolutivo positivo nesse processo de comercialização.

“Atualmente, há um sistema automático de autorização da Receita Federal para importação. Tudo é feito de forma on-line, em 30 segundos”, explica. Segundo ele, em 2019, o Brasil contava com cerca de 200 médicos prescritores de cannabis medicinal. Em 2023, esse número já passa de cinco mil, considerando também os cirurgiões-dentistas, que passaram a aderir aos tratamentos com essa substância recentemente.

O número de pacientes submetidos aos tratamentos com canabinoides também aumentou exponencialmente. Em 2019, cerca de 4,5 mil pessoas receberam prescrições para esse tipo de tratamento e, de acordo com o empresário, em 2022 o ano encerrou com 91 mil pacientes.

A empresa de Postiglione conta com um Instituto de Pesquisa, o IP Remederi, que promove e apoia pesquisas clínicas, educação médica e informação a profissionais da saúde prescritores, incluindo odontologistas. “Nosso principal objetivo é facilitar e democratizar o acesso à informação, educação, conexão entre os profissionais prescritores e os pacientes, e, finalmente, o acesso a produtos certificados, com garantia da certeza e constância das formulações”, declara.

Postiglione aponta que esse mercado está em uma curva vertical evolutiva muito grande. “Costumo comparar esse crescimento à idade canina; a cada um ano, evoluímos sete”, finaliza.

Acesso

Atualmente, os pacientes que desejam usar cannabis medicinal devem comprar os produtos em clínicas ou farmácias privadas e pagar por eles do próprio bolso. Isso tornou o acesso à cannabis medicinal um desafio para muitos pacientes, principalmente aqueles com baixa renda ou que vivem em áreas remotas, onde não há clínicas ou farmácias privadas que armazenem produtos de cannabis medicinal.

O acesso por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) é, por enquanto, limitado. Embora a substância tenha sido legalizada para prescrição e uso no Brasil em 2015, o Ministério da Saúde publicou diretrizes permitindo que médicos e cirurgiões-dentistas prescrevessem medicamentos à base de cannabis apenas em 2021, incluindo o tratamento de condições como dor crônica, epilepsia e esclerose múltipla.

No entanto, como a cannabis medicinal ainda não é produzida no Brasil, os pacientes que desejam usá-la devem contar com produtos importados, que podem ser caros e de difícil acesso, mesmo que o Governo tenha autorizado um pequeno número de empresas a realizar a importação. No entanto, há esforços em andamento para melhorar o acesso à cannabis medicinal para os pacientes no Brasil, incluindo o desenvolvimento de uma indústria doméstica e a expansão da estrutura legal para cobrir uma gama mais ampla de condições médicas.